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domingo, 31 de maio de 2009

2a Oficina Temática – Volta Redonda - Textos

O Lixo e a Questão Ambiental[1]

Fábio Neves


A gestão dos resíduos sólidos[2] é, sem dúvida, um dos maiores desafios para as grandes cidades do século XXI. É comum lermos notícias sobre: a ausência da coleta do lixo nas periferias dos grandes centros urbanos, o fim do tempo de vida útil dos aterros sanitários, a reação de moradores contra a implantação de um aterro em seu bairro, entre outros sintomas do problema do tratamento e da gestão de nossos dejetos[3].

A história da relação do homem com os seus dejetos e, especificamente, com o lixo sempre esteve marcada por estigmas, repulsa e dificuldades. Estigma com relação às pessoas que lidam com o lixo e com os dejetos produzidos. No passado eram, geralmente, prisioneiros de guerra, condenados, escravos, ajudantes de carrascos, prostitutas e mendigos que se ocupavam dos serviços de limpeza pública, ou seja, as “camadas socialmente inferiores”. Até hoje, na Europa, pode-se observar a prevalência de estrangeiros no trato dos resíduos sólidos[4]. A repulsa pode ser observada nos significados dos termos equivalentes a lixo em outros idiomas. O alemão Abfall, o francês déchet e o inglês formal refuse indicam aquilo que deve ser mantido longe, que é recusado. As dificuldades com a gestão dos resíduos sólidos apareceram mesmo em capitais européias, como podemos observar no trecho de obra de Victor Hugo:


“Às vezes, os canos de Paris entravam a transbordar, como se aquele desprezado Nilo subitamente se encolerizasse, causando coisa vergonhosa, inundações de lixo. Se aquele estômago da civilização digeria mal, a cloaca refluia à garganta da cidade e Paris tinha o ressaibo da sua lama!”
[5]

Diante das dificuldades decorrentes da produção de lixo nas cidades, foram tomadas medidas para sanar e amenizar a insalubridade nas ruas. Em Atenas, no ano de 320 a.C., já existiam deliberações sobre a limpeza pública. Limpadores de ruas chamados de kropologen eram os responsáveis pela salubridade das ruas principais. Medidas de limpeza e reaproveitamento de materiais foram estratégias utilizadas pelas mais variadas nações para resolverem a questão dos resíduos. O reaproveitamento do lixo orgânico como fertilizante para o solo e a seleção de materiais na Roma Antiga através dos coletores que trabalhavam nas desembocaduras das cloacas – chamados de canicolae – foram estratégias utilizadas ao longo da história das cidades[6].

E assim nota-se que mesmo percebendo o lixo como um símbolo de ameaça, a idéia de repulsa absoluta quanto aos dejetos já era questionada mesmo durante o Império Romano. Isso significa que o lixo tem com o homem uma relação ambígua, que às vezes representa ameaça e outras vezes utilidade, como é demonstrado na citação: “As fezes (como elemento de fertilização) foram decisivas para o nascimento das cidades”.

Pensando na cidade como um grande sistema, composto por partes interdependentes que caracterizam o funcionamento desse todo, é possível reconhecer que ela depende de um subsistema de abastecimento que deverá suprir suas necessidades, com alimentos (cultivados no campo), matérias-primas, entre outros elementos. Um outro subsistema que está ligado à cidade é o de seu desabastecimento (da eliminação de objetos inúteis e dos dejetos humanos). O subsistema de desabastecimento, do qual faz parte a gestão dos resíduos sólidos, sempre foi um problema nas grandes aglomerações humanas. Os esforços para escoar águas servidas e dar destino ao lixo e aos cadáveres fazem parte da vida urbana.

Neste início de século, o lado dramático da questão do lixo, enquanto problema ambiental urbano, está relacionado a dois fatores: o aumento contínuo da grande massa de resíduos e a escassez ou esgotamento de espaços propícios à disposição do lixo. As mudanças na composição e na quantidade do lixo produzido em cidades milionárias, cada vez mais populosas, e seus problemas correlatos de destinação e tratamento demonstram a obsolescência de nossos sistemas de gestão dos resíduos sólidos. O esforço para a resolução da questão do lixo perpassa pela mudança de uma concepção secular de repulsa e afastamento. Necessita de uma aceitação do lixo como problema social e que diz respeito a todos e envolve a ação em várias escalas. Desde o indivíduo em sua residência através da separação do lixo para a coleta seletiva, passando pelas municipalidades (atuais gestores dos resíduos sólidos no Brasil), até a ação integrada de vários níveis de governo para enfrentar o problema e propor alternativas. Para o indivíduo, o problema do lixo parece acabar quando este o leva para fora de sua residência, passando a se tornar responsabilidade do Estado. Assim, é pouco provável que este indivíduo reflita sobre para onde vão os resíduos sólidos, qual o volume que ocupam, aonde são dispostos, quais impactos provocam nos sistemas ambientais, quais as potencialidades do seu reaproveitamento e qual é a sua durabilidade. É somente na emergência das situações calamitosas ou situações-limite que o cidadão adquire algum grau de consciência da relevância da coleta pública do lixo e da quantidade dos resíduos produzidos diariamente[3].

Pensar o lixo também significa atentar para a concepção do lixo não como um material, mas como um conjunto de objetos poliformes e de composição variada. Assim, podemos dividir esse conjunto em materiais reaproveitáveis ou não, o que significa que surgem duas classificações: o lixo real e pseudo-lixo. O primeiro corresponde ao material absolutamente inaproveitável, sem nenhum valor econômico ou social, que deve ser isolado, mantido longe da população. O último é o lixo que pode ser reaproveitado, que diante das técnicas de transformação de materiais pode se tornar matéria-prima para atividades de produção, possui, portanto, um valor exprimível. O tipo de material que pode ser considerado pseudo-lixo varia no tempo e no espaço, através das opções técnicas disponíveis para reutilização desses materiais[8].

A estreita relação entre os resíduos sólidos, a cidade e a sociedade nos revela que o lixo é uma testemunha do desenvolvimento do homem, dos seus hábitos, dos seus costumes, das suas práticas e das suas crenças. É um objeto de estudo que nos revela, através das sobras do consumo no cotidiano, traços sociais dos mais diversos possibilitando um diagnóstico de determinada sociedade – o que já é feito por uma ciência chamada de rudologia, que utiliza a lixeira como objeto de estudo. Assim, por que não nos referirmos ao lixo como um espelho social?

Lixo[9]

Luis Fernando Veríssimo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam
— Bom dia...
— Bom dia.
— A senhora é do 610.
— E o senhor do 612.
— É.
— Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
— Pois é...
— Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
— O meu quê?
— O seu lixo.
— Ah...
— Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
— Na verdade sou só eu.
— Mmmm. Notei também que o senhor usa muita comida em lata.
— É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
— Entendo.
— A senhora também...
— Me chame de você.
— Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
— É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes.

Mas como moro sozinha, às vezes sobra...
— A senhora... Você não tem família?
— Tenho, mas não aqui.
— No Espírito Santo.
— Como é que você sabe?
— Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
— É. Mamãe escreve todas as semanas.
— Ela é professora?
— Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
— Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
— O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
— Pois é...
— No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
— É.
— Más notícias?
— Meu pai. Morreu.
— Sinto muito.
— Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
— Foi por isso que você recomeçou a fumar?
— Como é que você sabe?
— De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
— É verdade. Mas consegui parar outra vez.
— Eu, graças a Deus, nunca fumei.

— Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...

— Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
— Você brigou com o namorado, certo?
— Isso você também descobriu no lixo?
— Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
— E, chorei bastante. Mas já passou.
— Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
— É que eu estou com um pouco de coriza.
— Ah.
— Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
— É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
— Namorada?
— Não.
— Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
— Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
— Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
— Você já está analisando o meu lixo!
— Não posso negar que o seu lixo me interessou.
— Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
— Não! Você viu meus poemas?
— Vi e gostei muito.
— Mas são muito ruins!
— Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
— Se eu soubesse que você ia ler...
— Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
— Acho que não. Lixo é domínio público.

— Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
— Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
— Ontem, no seu lixo.
— O quê?
— Me enganei, ou eram cascas de camarão?
— Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
— Eu adoro camarão.
— Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
— Jantar juntos?
— É.
— Não quero dar trabalho.
— Trabalho nenhum.
— Vai sujar a sua cozinha.
— Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
— No seu lixo ou no meu?


[1]Texto preparado pelo autor para a Oficina Pedagógica “A Questão Ambiental do Ensino de Geografia”, desenvolvida pelos professores Ênio Serra dos Santos (Faculdade de Educação/UFRJ), Telma Mendes Silva (Depto. Geografia/IGEO) Rosalina Maria Costa (Colégio de Aplicação /UFRJ) e Vânia Nunes Morgado (Colégio de Aplicação/UFRJ), 2007, Depto. Geografia/UFRJ.

[2]Utilizamos resíduos sólidos e lixo como sinônimos.

[3]O termo dejetos tem um sentido mais amplo, que compreende além do lixo, as águas servidas, excrementos, etc.

[4]Para a história da relação do homem com o lixo e com a degenerescência dos objetos e dos corpos, ver EIGENHEER, Emílio Maciel. Lixo, vanitas e morte. Niterói: EdUFF, 2003, 196p. Creditamos todas as referências históricas do texto a essa obra. Em alguns momentos deixamos de indicar a presença de seu texto apenas por comodidade.

[5]HUGO, V. [s. d.] apud EIGENHEER, op.cit.

[6]MUMFORD L. , (1965) apud EIGENHEER, op. cit.

[7]BERRÍOS, M. R. O lixo nosso de cada dia. Manejo de resíduos: pressuposto para a gestão ambiental. J. O. Campos, R. Braga, P. F. Carvalho (orgs.). 1.ed. Rio Claro: Laboratório de Planejamento Municipal – DEPLAN – IGCE UNESP, pp. 9 – 39, 2002.

[8]Nos baseamos aqui na distinção feita entre l´ordure e le déchet por GOUHIER, Jean. De la décharge au territoire de qualité: évolution de la place dês déchets dans la société. De la décharge à la déchetterie. Question de géographie des déchets. J. Bertrand (org.). Rennes: Presses Universitaires de Rennes, Collection “Géographie Sociale”, pp. 17 – 57, 2003.

[9]Texto de Luís Fernando Veríssimo, extraído do livro O Analista de Bagé (Porto Alegre:Editora L&PM, 1981). http://literal.terra.com.br/verissimo/porelemesmo/porelemesmo_lixo.shtml?porelemesmo


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Texto complementar


LAYARGUES, Philippe. O cinismo da reciclagem: o significado ideológico da reciclagem da lata de alumínio e suas implicações para a educação ambiental. LOUREIRO, F.; LAYARGUES, P.; CASTRO, R. (Orgs.) Educação ambiental: repensando o espaço da cidadania. São Paulo: Cortez, 2002, 179-220.


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